segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Clássico dos anos 1980, ‘A arca de Noé’ ganha nova versão com artistas de várias gerações

  • Disco tem participação de nomes como Caetano, Zeca Pagodinho, Maria Luiza Jobim, Ivete Sangalo e Chico Buarque
Leonardo Lichote (Email)
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RIO - Sobre as cordas do arranjo do americano Miguel Atwood-Ferguson, baseado no original de Rogério Duprat, a voz de Maria Bethânia, como se fosse Deus (“Ela é Deus”, confirma Adriana Calcanhotto), faz nascer um cenário enquanto fala. São versos de Vinicius de Moraes: “Sete em cores, de repente/ O arco-íris se desata/ Na água límpida e contente/ Do ribeirinho da mata”. Seu Jorge — timbre grave, almirante negro — anuncia a chegada de Noé, sua alegria e barba branca. Péricles desce feliz da nau, com o coro de crianças e da bicharada. Assim começa a nova viagem de “A arca de Noé” (Sony), clássico da música brasileira feita para crianças de todas as idades que reuniu a nata da MPB em dois discos (1980 e 1981) cantando temas de Vinicius (a maioria com Toquinho), como “O pato” e “O leão”. Agora, às vésperas do centenário do poeta (Vinicius faria 100 anos no dia 19 de outubro), eles são revisitados por medalhões (Caetano Veloso, Gal Costa, Chico Buarque), pela nova geração (Orquestra Imperial, Maria Luiza Jobim), por nomes consagrados na seara mais popular (Chitãozinho & Xororó, Ivete Sangalo), num olhar generoso que traça sem pretensão científica um painel do cenário contemporâneo da MPB, como uma grande arca. Um barco livre, segundo explica Susana Moraes, filha de Vinicius e timoneira do projeto ao lado de Dé Palmeira, Adriana Calcanhotto e Leonardo Netto.
— Foi uma escolha totalmente espontânea, sem rabo preso com nada, sem se importar se era gente famosa ou não, nada. Foi afinidade mesmo. Fulano vai ficar bem nessa, ou isso vai ser surpreendente com essa pessoa... — diz Susana.
Adriana assume o leme:
— Dé foi o que pensou melhor a voz de cada pessoa para cada música. Ele começou com a Ivete em “A galinha-d’angola” (com o grupo português Buraka Som Sistema e seu kuduro, ritmo d'Angola como o animal). Depois veio Zeca (que dá síncope ao caminhar do pato jogando-o do compasso ternário original para o binário do samba), foram escolhas muito acertadas. Eu sugeri o Chico cantando “O pinguim”, pensando nesse humor cara de pau que é necessário para cantar Vinicius e que ele é quem mais tem, logo abaixo do próprio Vinicius.
A observação de Adriana sobre o samba amaxixado que “O pinguim” se tornou, à la velha malandragem, leva a conversa para um aspecto central da obra de Vinicius, a malícia presente mesmo na sua produção para crianças.
— Sempre tem uma sacanagenzinha por trás, por mais que pareça uma coisa boa e direta tem uma maldade por trás — define Susana.
Dé complementa:
— As letras são cruéis. Todos os bichos vão parar na panela, morrem.
Adriana nota que a crueldade não é gratuita:
— Todos os poemas (originalmente, as canções eram poemas) têm essa coisa do ciclo, do predador, da presa, da sobrevivência. Ele está o tempo todo lidando com isso, não está fazendo animais da Disney. Está falando da vida como ela é.
Adriana, porém, quis poupar um animal da vida como ela é e vetou a regravação de “O porquinho” (“Ela gosta de porquinho”, explica Susana). Cantada originalmente por Grande Otelo, a música soa como um divertidíssimo jingle de açougue, com versos em primeira pessoa como “Do rabo ao focinho/ Sou todo toicinho/ Bota malagueta/ Em minha costeleta/ Numa gordurinha”.
— Era demais. Porco não — diz Adriana, quase séria.
CD traz inédita “O elefantinho”
“A arca de Noé” traz a regravação de quase todos os temas de animais dos álbuns originais — que tinham ainda outras, como “A porta” e “O relógio”. E inclui também “São Francisco” (com Miúcha e Paulo Jobim) e “A casa” (na voz de Vinicius e no violão de Toquinho), além de duas que não estavam nos discos dos anos 1980 (ambas a partir de poemas de Vinicius, claro): “As borboletas”, musicada por Cid Campos e já gravada no segundo CD de Adriana Partimpim; e “O elefantinho”, com melodia de Partimpim, inédita.
— “As borboletas”, a Partimpim roubou da “Arca”, ela foi feita para esse disco. Porque o projeto da “Arca” vem sendo pensado há uns cinco anos — lembra Adriana.
Leonardo Netto, responsável pela logística do projeto, explica a demora:
— Era um disco caro, muitas pessoas com agendas complicadas. Conseguimos porque todas queriam participar, tivemos antecedência para conciliar as agendas, e a Sony comprou a ideia no todo, exatamente como queríamos.
Dos convidados, acabaram não entrando apenas João Gilberto (que faria “São Francisco”, mas cancelou sua participação) e Gilberto Gil, pensado para gravar a inédita “O peixe-espada”, que não ficou pronta a tempo.
— Está com ele, pode ser que chegue e dê a partida a uma segunda “Arca” — diz Adriana.
A ordem do disco sugere uma narrativa quase mítica. Logo depois da abertura (com Bethânia, Seu Jorge e Péricles), a arca, tal qual a caravela de Cabral, desembarca na Bahia — Caetano e Moreno transformam “O leão” num pagode baiano. A Bahia passa o bastão ao samba carioca — como na história da baiana Tia Ciata servindo de mãe do gênero no Rio —, e Zeca aparece com “O pato”. A partir daí, a história segue cortando a música brasileira, indo da disco music anárquica da Orquestra Imperial (“A foca”) aos timbres andinos de Arnaldo Antunes (“O peru”), passando pelo sertão de Chitãozinho & Xororó (“A corujinha”).
— Nunca tinha prestado atenção neles, mas fomos a um prêmio, eles cantaram, e fiquei boba com a voz dos dois — lembra Susana, referindo-se a Chitãozinho & Xororó. — Eles me remeteram a essa coisa da fazenda, onde passei muito a adolescência. A melancolia do fim de tarde, quando as corujas começam a piar. Tem uma coisa profunda nessa hora, quando o sol se põe, e os bichos noturnos saem. E Chitãozinho & Xororó fizeram a canção lindamente.
Reunidos, Susana, Dé, Adriana e Leonardo recordam curiosidades das gravações.
— Maria Luiza Jobim grava a única música que é do Tom (seu pai) no disco. E a mãe dela participou da gravação original, tem esses links — diz Dé.
Adriana conta outra:
— Arnaldo gravou “O peru” em duas oitavas. Porque a música fala de um peru que pensa que é um pavão. Então o grave é o que o peru é realmente, e o agudo é o que ele pensa que é.
Dos detalhes de making of, Susana é a que vai mais fundo, no nascimento dos poemas:
— Minha relação com essa obra vem de aporrinhar meu pai. Eu e Pedro (irmão dela) perguntávamos: “O que você está escrevendo?”. Ele respondia: “Poesia”. “E o que é poesia?” Até que, para se livrar da gente, começou a fazer esses poemas de bichos — brinca Susana, que trabalha com Sérgio Machado e Walter Salles num filme de animação da “Arca”.
Apesar das 17 faixas, o disco não é longo, pois as canções são curtas. Por dois motivos, Adriana explica:
— Crianças acham que o tempo do mundo é o tempo do computador. E eu também sou a favor de disco curto, canção curta. Porque a vida é curta.

As faixas de ‘A arca de Noé’ (2013)

1. “A arca de Noé” - Maria Bethânia, Seu Jorge e Péricles (gravada anteriormente por Chico Buarque e Milton Nascimento)
2. “O leão” - Caetano Veloso e Moreno Veloso (gravada anteriormente por Fagner)
3. “O pato” - Zeca Pagodinho (gravada anteriormente por MPB-4)
4. “O peru” - Arnaldo Antunes (gravada anteriormente por Elba Ramalho)
5. “O gato” - Mart’nália (gravada anteriormente por Marina Lima)
6. “O pintinho” - Erasmo Carlos (gravada anteriormente pelas Frenéticas)
7. “A corujinha” - Chitãozinho & Xororó (gravada anteriormente por Elis Regina)
8. “As borboletas” - Gal Costa (não foi gravada nos volumes originais)
9. “A formiga” - Mariana de Moraes (gravada anteriormente por Clara Nunes)
10. “A galinha d’Angola” - Ivete Sangalo e Buraka Som Sistema (gravada anteriormente por Ney Matogrosso)
11. “O pinguim” - Chico Buarque (gravada anteriormente por Toquinho)
12. “A cachorrinha” - Maria Luiza Jobim (gravada anteriormente por Elas)
13. “O elefantinho” - Adriana Partimpim (inédita)
14. “As abelhas” - Marisa Monte (gravada anteriormente por Moraes Moreira)
15. “A Foca” - Orquestra Imperial (gravada anteriormente por Alceu Valença)
16. “São Francisco” - Miúcha e Paulo Jobim (gravada anteriormente por Ney Matogrosso)
17. “A casa” - Vinicius de Moraes (gravada anteriormente por Boca Livre)

Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/cultura/classico-dos-anos-1980-arca-de-noe-ganha-nova-versao-com-artistas-de-varias-geracoes-10218867#ixzz2kNZikZ1r
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