segunda-feira, 11 de novembro de 2013

A ARCA DE NOÉ DE VINA.


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A arca de Noé

Rio de Janeiro, Sabiá, 1970

Mais conhecidos pelo disco feito para crianças, os poemas da A Arca de Noé foram escritos por Vinicius muitos anos antes de sua primeira edição. Eram feitos para seus filhos Suzana e Pedro de Moraes. Por muitos anos, eles ficaram guardados. Só em 1970, o conjunto de poemas infantis ganha o mundo. Seu lançamento ocorre na Itália, país onde a presença do poeta era constante, seja através de diversas visitas e temporadas ou de traduções de sua obra.

É lá, justamente quando Vinicius conhece um amigo de Chico Buarque chamado Toquinho, que o disco com os poemas infantis é preparado. O disco é chamado L’Arca. No mesmo ano, seus poemas musicados na Itália são lançados em livro no Brasil. Dez anos depois, dois discos dedicados ao conjunto de poemas infantis de Vinícius também são lançados no país, com o mesmo nome do livro.

A Arca de Noé tornou-se um dos livros mais populares de Vinicius de Moraes por ter criado um laço com as crianças. Todas as gerações têm nos seus poemas uma porta de entrada no mundo da literatura e da música popular brasileira. Ao mesmo tempo, no âmbito musical, foi o primeiro trabalho que apresentou a ele Toquinho, parceiro até o fim da vida. 

Nota Bibliográfica

Capa e ilustrações de Marie Louise Nery

Índice

    A arca de Noé

    Sete em cores, de repente
    O arco-íris se desata
    Na água límpida e contente
    Do ribeirinho da mata.

    O sol, ao véu transparente
    Da chuva de ouro e de prata
    Resplandece resplendente
    No céu, no chão, na cascata.

    E abre-se a porta da Arca
    De par em par: surgem francas
    A alegria e as barbas brancas
    Do prudente patriarca

    Noé, o inventor da uva
    E que, por justo e temente
    Jeová, clementemente
    Salvou da praga da chuva.

    Tão verde se alteia a serra
    Pelas planuras vizinhas
    Que diz Noé: "Boa terra
    Para plantar minhas vinhas!"

    E sai levando a família
    A ver; enquanto, em bonança
    Colorida maravilha
    Brilha o arco da aliança.

    Ora vai, na porta aberta
    De repente, vacilante
    Surge lenta, longa e incerta
    Uma tromba de elefante.

    E logo após, no buraco
    De uma janela, aparece
    Uma cara de macaco
    Que espia e desaparece.

    Enquanto, entre as altas vigas
    Das janelinhas do sótão
    Duas girafas amigas
    De fora as cabeças botam.

    Grita uma arara, e se escuta
    De dentro um miado e um zurro
    Late um cachorro em disputa
    Com um gato, escouceia um burro.

    A Arca desconjuntada
    Parece que vai ruir
    Aos pulos da bicharada
    Toda querendo sair.

    Vai! Não vai! Quem vai primeiro?
    As aves, por mais espertas
    Saem voando ligeiro
    Pelas janelas abertas.

    Enquanto, em grande atropelo
    Junto à porta de saída
    Lutam os bichos de pêlo
    Pela terra prometida.

    "Os bosques são todos meus!"
    Ruge soberbo o leão
    "Também sou filho de Deus!"
    Um protesta; e o tigre - "Não!"

    Afinal, e não sem custo
    Em longa fila, aos casais
    Uns com raiva, outros com susto
    Vão saindo os animais.

    Os maiores vêm à frente
    Trazendo a cabeça erguida
    E os fracos, humildemente
    Vêm atrás, como na vida.

    Conduzidos por Noé
    Ei-los em terra benquista
    Que passam, passam até
    Onde a vista não avista.

    Na serra o arco-íris se esvai...
    E... desde que houve essa história
    Quando o véu da noite cai
    Na terra, e os astros em glória

    Enchem o céu de seus caprichos
    É doce ouvir na calada
    A fala mansa dos bichos
    Na terra repovoada.

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A Arca de Noé

Vinicius de Moraes

Sete em cores, de repente
O arco-íris se desata
Na água límpida e contente
Do ribeirinho da mata
O sol, ao véu transparente
Da chuva de ouro e de prata
Resplandece resplendente
No céu, no chão, na cascata
E abre-se a porta da arca
Lentamente surgem francas
A alegria e as barbas brancas
Do prudente patriarca
Vendo ao longe aquela serra
E as planícies tão verdinhas
Diz Noé: "Que boa terra
Pra plantar as minhas vinhas"
Ora vai, na porta aberta
De repente, vacilante
Surge lenta, longa e incerta
Uma tromba de elefante
E de dentro de um buraco
De uma janela aparece
Uma cara de macaco
Que espia e desaparece
"Os bosques são todos meus!"
Ruge soberbo o leão
"Também sou filho de Deus!"
Um protesta, e o tigre - "Não"
A arca desconjuntada
Parece que vai ruir
Entre os pulos da bicharada
Toda querendo sair
Afinal com muito custo
Indo em fila, aos casais
Uns com raiva, outros com susto
Vão saindo os animais
Os maiores vêm à frente
Trazendo a cabeça erguida
E os fracos, humildemente
Vêm atrás, como na vida
Longe o arco-íris se esvai
E desde que houve essa história
Quando o véu da noite cai
Erguem-se os astros em glória
Enchem o céu de seus caprichos
Em meio à noite calada
Ouve-se a fala dos bichos
Na terra repovoada

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