quarta-feira, 21 de novembro de 2012

JOÃO DA SILVA FEIJÓ


João da Silva Feijó

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João da Silva Barbosa ou João da Silva Feijó, (1760 Rio de Janeiro - 1824), era um soldado mineralogista, naturalista e Português, nascido no Brasil.
João da Silva Feijó estudou filosofia e matemática na Universidade de Coimbra e adotou o nome de Feijó, em homenagem a Benito Jerónimo Feijoo , [ carece de fontes? ] filósofo espanhol, que na época era respeitado entre os estudantes de história natural.
Em 1778, o professor italiano, Domenico Vandelli Agostino , fazia parte de um grupo que fundou o Museu de História Natural, em Lisboa . João da Silva fazia parte deste grupo com Alexandre Rodrigues Ferreira , Manuel da Silva Galvão e José Joaquim da Silva .
A feijoa , uma árvore que dá frutos verdes semelhantes às goiabas, é nomeado após ele.

Cabo Verde

A partir de 1783, viagens científicas sob Vandelli foram lançados. Naturalistas foram para planejar expedições para várias colônias. Feijó dispostos a explorar as ilhas do arquipélago de Cabo Verde , e chegou lá em junho de 1783. Tal como os seus colegas, ele tinha grande dificuldade em prosseguir a sua investigação como um homem independente da ciência. As atividades de um jovem naturalista, que observa e recolhe objetos, como borboletas, plantas, conchas e minerais, são muitas vezes olhadas com desprezo por funcionários coloniais.
Ele descreveu sua exploração de Cabo Verde em sete cartas enviadas ao ministro Martinho de Mello e Castro e discute a geografia, topografia e flora da ilha.
O trabalho de Feijó desapontado seu patrocinador Mello e Castro, que criticou a embalagem de embarques e escassez de material enviado. Foi lamentou que Feijó não propôs qualquer método de explorar o salitre e enxofre que se acreditava estar prontamente disponível nas regiões vulcânicas de Cabo Verde.
Em 1790, juntou-se ao estabelecimento Feijó militar local e logo pediu que ele seja autorizado a regressar a Portugal.
Em Lisboa , Feijó colaborou com seu velho amigo Alexandre Rodrigues Ferreira, recém-retornado da Amazônia, para produzir espécimes de herbário do material Cabo Verde. O naturalista alemão Heinrich Friedrich ligação , visita Portugal entre 1797 e 1799, encontrou seus colegas brasileiros e elogiou seu trabalho.
Em 1797, Feijó reescreveu parte do texto relativa a Cabo Verde e publicou um trabalho intitulado "Itinéraire philosophique".

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CLARETE PARANHOS DA SILVA & MARIA MARGARET LOPES
Instituto de Geociências/DGAE, Universidade Estadual de Campinas-Unicamp
UMA LEITURA CONTEXTUALIZADA DA
"MEMÓRIA SOBRE A CAPITANIA DO CEARÁ (1814)"
DO NATURALISTA JOÃO DA SILVA FEIJÓ (1760-1824).

INTRODUÇÃO
O século XVIII foi o século da História Natural também em Portugal. Como sugerido por Carvalho (1987), foi nesse campo que os portugueses, durante todo o século XVIII, mostraram grande capacidade como investigadores. No cerne dos processos que marcam a adesão do império português às ciências da época estão as investigações em torno da História Natural nos territórios do reino e do ultramar (1). Nas "viagens philosophicas", que se expandem no final do século XVIII sob a coordenação geral da Academia Real das Ciências de Lisboa e, especificamente, de Domingos Vandelli (1730-1815) (2), através da direção do Museu de Ajuda, situamos a emergência mais sistemática das atividades relacionadas às ciências naturais também na América portuguesa.
Embora este seja um período bastante estudado pela historiografia, Santos (1998), diferenciando as noções de império colonial e o significado do projeto político que concebeu um império luso-brasileiro, lembra que mesmo "a história política desse período ainda carece de maior atenção, tanto no lado português como no brasileiro". Muito também ainda está por ser feito, no que se refere a uma compreensão mais abrangente da cultura científica luso-brasileira do período e dos que se seguem. Nesse sentido o levantamento documental e bibliográfico que estamos realizando sobre o naturalista João da Silva Feijó (1760-1824) (3), um dos integrantes do grupo de seguidores de Domingos Vandelli, é exemplar no sentido de demonstrar o quanto ainda está por ser feito para se avançar em uma compreensão mais abrangente sobre as trajetórias e produções de naturalistas que tiveram papéis proeminentes na cultura ilustrada luso-brasileira, no final dos setecentos, bem como em aspectos particulares da História econômica do período colonial nas diferentes regiões da América portuguesa.
João da Silva Feijó não mereceu senão poucas e incompletas menções no amplo estudo de Simon (1983) sobre as expedições científicas portuguesas no Ultramar. Segundo o autor, Feijó, que partira para uma relativa obscuridade em Cabo Verde (4), eventualmente teria retornado ao Rio de Janeiro.
Entre as informações contraditórias sobre a vida de João da Silva Feijó, o que parece se saber com precisão, é que faleceu já no posto de Coronel, tendo sido enterrado na sepultura de no. 24 dos Claustros da Capela de Nossa Senhora da Consolação, do Rio de Janeiro, da ordem 3a. de São Francisco de Paula, em 10 de março de 1824 (Silva Nobre, 1978), após mais de 40 anos a serviço da História Natural em Portugal, Cabo Verde, Ceará e Rio de Janeiro. Nascido em Guaratiba, Capitania do Rio de Janeiro em 1760, seus biógrafos se dividem quanto ao fato de Feijó ter ou não cursado a Universidade de Coimbra (5). De qualquer modo, em companhia de Alexandre Rodrigues Ferreira (1756-1815) - o conhecido naturalista que percorreu a Amazônia brasileira entre 1784 e 1792 - Feijó teria examinado a mineração de carvão de Buarcos, na região de Coimbra, em fins de 1788.
Feijó, que foi sócio correspondente da Academia Real das Ciências de Lisboa, empreendeu uma viagem filosófica pelas Ilhas de Cabo Verde, onde teria permanecido de 1783 a 1797. Durante esse período, Feijó manteve correspondência sistemática com Julio Mattiazi - responsável pelo Jardim Botânico de Coimbra, e também da Ajuda, com Vandelli e outras autoridades portuguesas (6). Elaborou diversos artigos que foram posteriormente publicados pela Academia Real das Ciências de Lisboa e outros periódicos (7). Depois de retornar de Cabo Verde, permaneceu por algum tempo em Lisboa onde elaborou um Discurso Político Sobre as Minas de Ouro do Brasil (8), sendo também encarregado de fazer experiências com o salitre da Ribeira do Alcântara, deixando sobre esse trabalho um documento intitulado Estado presente das experiências do salitre na Ribeira do Alcântara em 1º de março de 1798 (9).
Feijó partiu para o Ceará, designado, por Carta Patente de 25 de fevereiro de 1799 (10), com o mesmo ordenado de quatrocentos mil réis que já recebia, para ocupar o posto de "sargento mór das milícias, incumbido de vários objetos de História Natural".

A TRAJETÓRIA DE JOÃO DA SILVA FEIJÓ NO CEARÁ
Em 24 de outubro de 1799, depois de 32 dias de 'terrível viagem' por terra, o naturalista João da Silva Feijó, vindo de Pernambuco, chegou ao Ceará. A 4 de dezembro por ordem do governador partia para "Vila de Monte Mor o Novo de Baturité", para examinar a possibilidade de mineração de salitre na região de Canindé, distante quinze léguas da vila. Já que não pode desempenhar tal missão, por conta das chuvas que lixiviavam os terrenos, Feijó dirigiu-se ao "Sitio da Ribeira do Xoró" onde se supunha existir grande abundância de salitre, embora só tenha encontrado sal marinho. Comprometendo-se a repetir a análise em outro momento mais adequado, Feijó partiria seguindo as informações do Capitão Mor do Distrirto de Baturité para verificar a existência de um abundante terreno de salitre no Sitio de Caxerabomim, próximo à Serra dos Cocos, onde, aí sim, a existência de salitre já havia sido comprovada por suas próprias análises, realizadas ainda em Pernambuco.
Estes são alguns dos primeiros informes do naturalista a Dom Rodrigo de Sousa Coutinho, em carta enviada três meses depois de sua chegada (11). Nessa carta já encontramos muitos dos temas que ocuparão o naturalista nos próximo 15 anos em que se dedicará aos "vários objetos de história natural".
Feijó chegara ao Ceará no mesmo ano em que a capitania se tornava independente de Pernambuco e em que medidas administrativas estavam sendo tomadas para viabilizar esta autonomia política e econômica da região. Sua carta a Dom Rodrigo, em que recorre a fontes históricas e a informações locais, evidencia os esforços das autoridades em identificar e recuperar minerações existentes na região.
Desde pelo menos o ano de 1735 se tem notícias, não só de que o governo português buscava inventariar possíveis recursos minerais na região que abrange o atual estado do Ceará, como também de que esses já eram objeto de litígio de particulares locais, dados os privilégios e as 'desordens' em que se teria envolvido Antonio Gonçalves de Araújo, o superintendente das minas de prata da serra dos Cocos (12). Além da prata e do cobre de Ubajara, o ouro também passou a ser explorado nessas regiões da serra do Ibiapaba. Em continuidade a essas investigações, por Carta Régia de 11 de outubro de 1742, o mesmo Antônio Gonçalves de Araújo, Manoel Fernandes Losada e João Baptista Rodrigues receberam permissão para mandarem vir da Alemanha cinco mestres e oficiais de fundir e separar metais para trabalharem nas minas de ouro então em funcionamento no Ceará (13). Além dessas minas em atividade, achou-se também ouro na região do Cariri em 1752, e o capitão comandante e intendente dessas minas dos Cariris Novos, Jerônimo Mendes da Paz, passou a verificar a existência de novas ocorrências nos riachos dos Crioulos e do Machado, no rio Salgado, bem como de prata em um lugar conhecido por Salamanca. A Serra de Uruburetama foi explorada, bem como o salitre de Pilão Arcado e Salinas de cima, distrito da Nova Vila do Rio Grande, por volta de 1754. Ouro também fora encontrado em Ribeira do Caracu e na Serra da Ibiapaba, e o funcionamento de minas de São José dos Cariris receberá atenção especial do então ainda governo de Pernambuco, sendo objeto de diversos ofícios entre sua descoberta, até 12 de setembro de 1758, quando uma ordem régia recomendou a interrupção de todos os trabalhos de exploração de minas da Capitania, possivelmente pelo seu "pouco rendimento", informado às autoridades portuguesas pelo intendente das minas dos Cariris Novos, Jerônimo Mendes da Paz (14).
As investigações do naturalista Feijó na capitania indicam uma retomada dessas iniciativas anteriores. Em suas considerações sobre as 'Minas de Cobre', na Memória sobre a Capitania do Ceará, Feijó reavalia antigas explorações - que se supunha de prata - na serra grande da Ibiapaba, considerando promissora a mina de cobre que se encontrava em estado de "sulfate", se prolongava até a região do Piauí, onde o metal era utilizado na fabricação de arreios. Também recomendava atenção particular a essa exploração, não só pela "qualidade e importância do metal" - cobre - como "porque com efeito me persuado conter também a matriz alguma porção de prata" (Feijó, 1889-1997, p.15). Por ordem e "debaixo das vistas" do governador Feijó também examinou as antigas lavras de ouro da Mangabeira, que demonstraram ser pouco produtivas, adequando-se porém ao emprego da faiscação, e não por conta da Real Fazenda, obrigando-se possíveis interessados a pagar o quinto, e sendo submetidos ao controle por denúncias públicas, dada a facilidade de contrabando possibilitada pela localização das lavras (15).
As ocorrências de salitre foram objetos da dedicação de Feijó, em diversas regiões da Capitania do Ceará, tendo sido construídos pelo menos dois laboratórios para extração do produto, que funcionaram regularmente entre 1800 e 1805 (16). Feijó empreende suas primeiras investigações sobre o salitre na região de Tatajuba, pois, segundo ele, tratava-se de uma mina muito fecunda. Ali constrói um laboratório em finais de 1799 que chegou a funcionar regularmente, recebendo provisões do Estado. Em julho de 1804, na administração do governador João Carlos Augusto Oyenhausen, o laboratório é transferido para a localidade de Pindoba, na Serra da Ibiapaba. As razões dessa mudança são dadas pelo próprio Feijó em longos ofícios enviados ao citado governador (17). Segundo o naturalista, a produção em Tatajuba estava "empobrecida e deteriorada". Ao examinar as nitreiras em Pindoba e arredores, Feijó chega à conclusão que a transferência seria um bom negócio. De suas diligências na região de Pindoba "que me certificaram ser abundantes de minas e salitre", o naturalista sugere que seu aproveitamento seria de grande vantagem para Sua Alteza Real. Para convencer as autoridades, faz um paralelo entre as nitreiras de Tatajuba e as de Pindoba apontando, entre outras coisas, a maior riqueza das últimas, sua proximidade com "olho d'água" - daí a possibilidade de, no mesmo lugar, se extrair e purificar o produto para ser "logo conduzido ao porto do embarque para Lisboa" - , e a menor distância entre Pindoba e o porto mais próximo. Sugere ainda que se aproveitasse o mais rápido possível os produtos de Pindoba, erguendo ali oficinas de extração e refinação, abrindo as estradas necessárias, trazendo as caldeiras de Tatajuba, no intuito de poupar gastos. O laboratório de Tatajuba foi extinto em 1803 pela decadência em que se achavam as minas de salitre da região, conforme dito pelo próprio Feijó. O de Pindoba em 1805 porque

prometendo o naturalista fazer no primeiro ano uma porção de salitre como se verifica do ofício nº 3, exigindo para este estabelecimento a quantia de 200$000 ao muito, o resultado, findo o tempo, tendo-se despendido a quantia de 740$000 réis, foi somente uma amostra de salitre, em conseqüência do que foi mandado suspender o mencionado laboratório pelo sobredito Exmo. Governador, como declara o naturalista na Representação que vai por cópia sob nº 118.
Em suas múltiplas incumbências como naturalista, Feijó classificou plantas e por diversas vezes enviou caixotes ao Real Jardim Botânico da Ajuda e para a instituição congênere da Prussia, em Berlim (19). As relações de plantas e sementes seguiam arranjadas e acondicionadas pelo "Methodo". Divididas segundo as 24 classses da classificação lineana, as plantas e sementes eram acompanhadas de seus nomes vulgares na remessa para a Ajuda (20). Também seu interesse e planos para a realização de atividades botânicas já vinham enunciados em sua correspondência, mencionada acima, ao Ministro D. Rodrigo de Sousa Coutinho, a quem solicitava o envio de publicações e o auxílio de um 'desenhador', para o bom andamento de seus trabalhos de reconhecimento da flora cearense.
A minha particular inclinação ao estudo da Botânica tem-me conduzido a examinar, alguma coisa, deste fértil l país: ele me oferece vastíssimo campo para uma interessante flora, se Vossa Excelência for servido dignar se de mandar me providenciar com alguns livros, que me são necessários, como são a Edição de Gmelin, e a Encyclopedia Botanica de Frabicius e o auxilio de um desenhador (21).

Em maio de 1811, João da Silva Feijó foi promovido a Tenente Coronel agregado ao 1º Regimento da Cavalaria de Milícias da Capitania do Ceará e fez uma viagem ao Rio de Janeiro. Voltaria à capital do Império novamente por volta de 1818. Em 1822, o encontramos já como Tenente Coronel do Corpo de Engenheiros e lente de História Natural, Zoológica e Botânica da Academia Militar, solicitando ao já ministro José Bonifácio de Andrada e Silva "franquear as salas do Museu Nacional, para lá serem feitas demonstrações práticas de espécimens de História Natural, um dia por semana (22). De acordo com Silva Nobre (1997) os problemas políticos enfrentados por Feijó no Ceará relacionados à princípio aos problemas de subordinação ou não da região à Capitania de Pernambuco, ou os rendimentos das minas de salitre considerados não tão promissores como se esperava, teriam impedido a continuidade dos trabalhos de Feijó. Tais problemas teriam, por outro lado, possibilitado as investigações botânicas do naturalista, que resultariam em sua Coleção descritiva das Plantas da Capitania do Ceará.
Ao longo de sua permanência no Ceará o naturalista redigiu diversas memórias, resultantes de suas investigações sobre salitre, ouro, ferro, gado, além de seus trabalhos botânicos. Cumpriu seu ofício de naturalista na região, mapeando, descrevendo e explorando objetos de História Natural. Desse trabalho emergem algumas cartas topográficas e um grande número de memórias que vão ser posteriormente publicadas, como se poderá ver pela relação dos trabalhos que localizamos até o presente momento e que mostraremos a seguir.
Entre os trabalhos que localizamos e estamos analisando podemos mencionar: Preâmbulo ao ensaio filosófico e político sobre a Capitania do Ceará para servir para a sua história geral. Rio de Janeiro: Imprensa Régia, 1810. Memória econômica sobre a raça do gado lanígero da Capitania do Ceará, com os meios de organizar os seus rebanhos por princípios rurais, aperfeiçoar a espécie atual das suas ovelhas e conduzir-se ao tratamento delas e das suas lãs em utilidade geral do comércio do Brasil e prosperidade da mesma capitania; escrita e oferecida ao príncipe regente. Rio de Janeiro, 1811. Publicada no Auxiliador da Indústria Nacional, em 1842 e na Edição fac-similar de Separatas de artigos da Revista do Instituto do Ceará, tomo 3. Fortaleza: Biblioteca básica cearense/Fundação Waldemar Alcântara, 1997, pp. 368-397. Memória sobre a Capitania do Ceará, 1814. Publicada no Patriota, tomo 3, n. 1, pp. 46-62 e na edição fac-similar de Separatas de artigos da Revista do Instituto de Ceará, tomo 3. Fortaleza: Biblioteca básica cearense/Fundação Waldemar Alcântara, 1997, pp. 4-27. Memória sobre as minas de ferro do Cangati do Choró na Capitania do Ceará, escrita em 1814. Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, Obras raras, 39,5,9. Memória sobre as antigas lavras de ouro da Mangabeira da Capitania do Ceará, (1814). Publicada na Edição fac-similar de Separatas de artigos da Revista do Instituto do Ceará, tomo 3. Fortaleza: Biblioteca básica cearense/Fundação Waldemar Alcântara, 1997, pp. 367-370. Carta topográfica do Ceará à mina Salpetra, descoberta no sítio da Tatujuba na distância de 55 léguas da villa da Fortaleza, 1800. Autógrafo na BNRJ. Carta topográfica da Capitania do Ceará para servir à sua história geral, 1809. Autógrafo no Arquivo Militar. Planta demonstrativa da Capitania do Ceará para servir de plano à sua carta topográfica, delineada pelo sargento mor naturalista, etc., 1810. Cópia no Arquivo Militar. Coleção descritiva das plantas da Capitania do Ceará, 1818. In: Estudos sobre a coleção descritiva das plantas do Ceará (com o original inédito do naturalista Feijó. Fortaleza: Gráfica editorial Cearense Ltda, 1984 (coleção Estudos Cearenses).
Pelo volume de informações sobre a história natural e a economia do Ceará, as obras de Feijó são consideradas umas das mais completas da época, sendo o naturalista, considerado por diversos historiadores brasileiros (Brasil, 1863, ed. 1997; Braga, 1962) o melhor conhecedor da capitania do Ceará de sua época. Os conhecimentos por ele produzidos foram de tal maneira válidos, que foram referência para as investigações em ciências naturais após passados mais de 30 anos de sua morte. Os trabalhos de Feijó no Ceará, retomados no final da década de 1850, permaneceram referenciais para aquela que será a primeira expedição científica nacional, brasileira (23), organizada através do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro - IHGB, e pelos diretores do Museu Nacional do Rio de Janeiro - a Imperial Comissão Científica também chamada Comissão Exploradora das províncias do Norte.

A MEMÓRIA SOBRE A CAPITANIA DO CEARÁ
A Memória é composta de uma "introdução" e mais três "artigos" subdivididos em "parágrafos" curtos. Como quase todas as Memórias, este é um texto bastante direto e rápido, obedecendo à regras explícitas da Academia. Como a verdade era "o objeto principal dos trabalhos da sociedade", as Memórias deveriam "ter um estilo e um modo de pensar conveniente à sublime gentileza da mesma verdade, nenhuma exageração, nenhuma declamação, nenhuma hipótese mal fundada ou discurso vago" seriam aceitos pela Academia (CSLE, 1822: 63). Verdade fundada na experiência, objetividade, clareza, utilidade. Estas eram as regras que os memorialistas deveriam seguir à risca. As Memórias oferecidas eram valorizadas quanto mais levassem em consideração tais critérios. O próprio Feijó, na introdução de sua Memória faz questão de sublinhar o caráter útil de seu trabalho ao afirmar que
É necessário ter muito pouco conhecimento do físico da Capitania do Ceará para duvidar das imensas vantagens que ela pode produzir em utilidade dos seus habitantes, aumento do seu comércio e prosperidade geral do Estado (p. 3).

O naturalista ainda nota que o "presente discurso" tem o objetivo de mostrar a verdade, servindo de estímulo para que se faça todo o possível para o aumento da prosperidade da Capitania.
Os três "artigos" (e seus respectivos parágrafos) em que se dividem a Memória são:
Artigo 1. Da corografia do Ceará: situação topográfica; limites; extensão da superfície; configuração do terreno; direção da Grande Serra; principais montanhas; sorte de solos, enseadas e portos da costa.
Artigo 2. Do Físico: do ar em geral; do clima e estações; do verão; causas que moderam seu calor; do inverno; suas chuvas; seu menor calor; umidade da atmosfera e seus efeitos; causa da diferença do calor; e das doenças do pais; qualidade física do terreno; sua construção interior e produções do reino mineral; de pedra calcárea; raras petrificações; ossada fóssil; terra vegetal; minas de ouro; minas de ferro; minas de cobre; minas de plumbagina; nitreiras naturais; salinas; produções vegetais; das matas; frutificação das árvores e arbustos; hortaliças; produções das plantas indianas; árvores particulares; préstimos de outros vegetais e de suas produções.
Artigo 3. Do político do Ceará: conclusão; deve-se proteger a arte pastoril; o mesmo da arte piscatória; aproveitamento das salinas; proteção da agricultura em geral; introdução da cultura de muitos vegetais exóticos.

Pela quantidade de objetos tratados pode parecer que a Memória é extensa. Mas como dito anteriormente, os assuntos são tratados de maneira bastante rápida. Apenas para ilustrar, o exemplar que temos em mãos, impresso em 1997, possui 27 páginas. A intenção do autor não é fazer um estudo minucioso, mas fornecer um quadro geral das potencialidades da Capitania. Ele mesmo afirma que tratará oportunamente dos objetos aqui apontados em "um mais extenso e circunstanciado tratado".

CONSIDERAÇÕES SOBRE O ARTIGO 1. DA COROGRAFIA DO CEARÁ
De maneira geral há aqui uma preocupação em dar uma exata localização da Capitania, descrevendo tanto a configuração dos seus terrenos como daqueles a que ela serve de limites. Nessa parte do texto os objetos que mais recebem a atenção no naturalista são a localização de algumas montanhas e serras, e a identificação do tipo de solos. O pragmatismo se faz presente em sua procura por boas enseadas e bons portos da costa que sirvam como ancoradouro para embarcações. Certamente a facilitação do comércio está na mente do autor. Tal pragmatismo, uma característica marcante na formação dos ilustrados luso-brasileiros daquele período, mostram a inserção de Feijó no espírito do reformismo ilustrado do Estado português, onde a resolução de problemas concretos era um dos mais importantes objetivos a serem alcançados.

Das "regularidades" e das montanhas e serras
As montanhas haviam despertado, desde o século XVII, um grande interesse por parte dos estudiosos da Terra. No século XVIII, o estudo das montanhas e de suas origens tornou-se tema privilegiado. É um assunto quase que obrigatório, aparecendo praticamente em todos os textos de naturalistas que se dedicavam aos estudos da Terra. Segundo Gohau (1987: 54), não faltavam razões para a utilidade das montanhas.
Assim seus flancos são um bom local para a construção de habitações; oferecem uma variedade de climas que permite a vida de animais variados e de vegetais múltiplos; são favoráveis à exploração de jazidas metálicas e mineralógicas; contém ervas que servem para alimentar o gado; servem de nascente para os rios e fontes; finalmente, desempenham papel de fronteiras naturais.
Para os netunistas, seguidores do modelo do mineralogista saxão Abrahan Gottlob Werner (1749-1817) (24), o qual atribuía à água o papel preponderante na formação da crosta terrestre, o termo montanha não designava apenas a parte mais elevada da crosta, mas todo o depósito que tivesse ocorrido em uma mesma idade. Dessa forma, entender a origem dos montes seria entender a origem da própria crosta terrestre.
Um tal objeto não poderia escapar das anotações de Domingos Vandelli. Sempre preocupado em orientar o trabalho dos filósofos naturalistas e, ao mesmo tempo, mostrando estar atento ao que ocorria no campo da disciplina responsável pelo conhecimento e domínio da natureza - a História Natural - , Vandelli escrevia em 1779 que o naturalista, ao tratar dos objetos da Mineralogia, deveria principiar pelas montanhas

...que são estas elevações que observamos na superfície da terra. Elas além de conterem os mais ricos tesouros da natureza, são de infinitos outros usos aos homens: as repartições dos Estados, o ar puro, que nelas se respira, o prodigioso número de vegetais que aqui se criam [...] a variedade de fósseis, a formação dos metais, a direção dos ventos, a abundância das águas de que elas são como reservatório; tudo isto faz o mais importante objeto às séries de reflexões de um filósofo (Vandelli, 1779: 17-18).

Como se nota, as observações de Vandelli apontam exatamente para aqueles elementos citados por Gohau (1987), o que mostra que o professor da Universidade de Coimbra seguia uma prática e uma tradição internacionais e não apenas locais.
Outra característica marcante nos textos de História Natural dedicados ao campo dos estudos da Terra refere-se ao que Taylor (1988) chamou de "regularidades permanentes". Segundo esse autor, o estudo das "regularidades permanentes" ou de "disposição" (25) constituía-se em prática dominante nos estudos "geológicos" (26) do século XVIII. A preocupação com o reconhecimento das regularidades refletiria o empirismo característico daquele momento e a ambição de se fazer generalizações, de se criar leis no domínio da nascente Geologia. Taylor destaca que nos textos de autores como Buffon (1707-1788), Louis Bourguet (1678-1742), Nicolas Demarest (1725-1815), Horace Bénédict de Saussure (1740-1799) e Jean André Deluc (1727-1817), as regularidades que mais aparecem são: os grandes traços dos continentes; a posição dos maciços continentais e dos oceanos; as medidas e orientações do globo; a altura, a localização e a profundidade dos rios, a direção das águas dos rios e dos mares, a disposição das camadas estratigráficas, a relação entre as camadas estratigráficas e os minerais nelas contidos, a correspondência dos ângulos das montanhas paralelas (27); a direção das montanhas, etc.
Feijó, ao seguir as instruções do professor Vandelli e da Academia Real das Ciências de Lisboa, coloca-se dentro de uma tradição vigente no seu tempo. Nos textos de muitos naturalistas que se dedicavam aos estudos da Terra, alguns temas tinham que aparecer, quase que obrigatoriamente, mesmo que não fossem discutidos em profundidade, mas apenas para seguir aquela tradição. Isso fica evidente pelos título que Feijó dá aos parágrafos 5º e 6º respectivamente: "direção da Serra Grande" e "Principais Montanhas". A nosso ver, não resta dúvida que Feijó, ao escrever sobre esses objetos, tinha em mente as orientações de Vandelli e da Academia.
Nesses dois curtos parágrafos, podemos notar a ênfase na descrição das montanhas e seus arredores. Sobre a Serra Grande o autor aponta onde começa e para onde se dirige.

§ 5º. Direção da Serra Grande. Persuado-me, e não sem fundamento, que esta mesma serra, que desde a sua origem na Timonha até os Cariris, toma diversas denominações, como Serra da Ibiapaba, de Biapina, dos Côcos, do Cratiux e do Araripe, e continuando a decorrer até Pernambuco, vem a formar aquelas duas pontas de terra ou cabos que se conhecem com os nomes de S. Roque e S. Agostinho (p. 6).

Sobre as principais montanhas, além de apontar quais são, Feijó faz comentários sobre as planícies, rios e lagoas que fazem parte da paisagem próxima aos terrenos montanhosos.

§ 6º. Principais Montanhas. Entre as montanhas que povoam aquele vasto terreno da Capitania do Ceará, são as mais recomendáveis pela sua frescura, depois da Serra Grande, a de Baturité e suas adjacentes, a de Uruburetama e a da Meruóca, e entre elas se encontram planícies mais ou menos extensas, particularmente nas margens dos rios e a que se chamam vargens, cobertas de carnaúbas e algumas matas, mais ou menos dilatadas, entre as quais de ordinário se notam muitas lagoas de águas doces e com especialidades e mais abundantes à beira mar (pp. 6-7).

CONSIDERAÇÕES SOBRE O ARTIGO 2. DO FÍSICO
Dividido em 29 parágrafos, esse artigo trata de uma grande variedade de assuntos. O esforço de Feijó em mostrar que a Capitania do Ceará é um bom lugar para se viver é notável. É certo que o verão é caracterizado "pela falta absoluta de chuvas a não serem alguns pequenos aguaceiros de pouco proveito", que o sol é muito intenso, "de maneira que faz reduzir a pó, em poucos dias, a maior parte dos vegetais". Mas há também a "frescura das noites" em especial nas serras e montanhas, onde se respira

um ar sereno e agradável, ainda mesmo no interior dos sertões, onde chega muita parte daquela umidade da atmosfera da beira-mar, levada para moderar este rigor geral do clima pelos ventos que então sopram regulares e rijos; sendo de notar que só aparecem essas ventanias quando o sol se vai aproximando de uma perpendicular e que por isso o calor é mais intenso, quer dizer, das 9 horas da manhã às 5 da tarde (p. 9).

Mas não só os ventos concorrem para atenuar o calor. No parágrafo 13, intitulado "causas que moderam o seu calor", Feijó explica que as matas "de que é povoado grande parte do pais", em especial as de beira-mar e das serras, também são responsáveis pela moderação do calor visto que "sua folhagem sempre verde e viçosa tem a propriedade de absorver muitos raios do sol, moderando assim o seu vivo efeito".
Quanto as estações de verão e de inverno, Feijó discorre sobre suas características, sobre a quantidade de chuvas de cada uma delas, em que meses iniciam e terminam, quais os meses de chuva e de estiagem, quando os rios secam e quando enchem.

Terreno vulcânico
Feijó divide o terreno da Capitania em três "tipos de solos": beira-mar, montanhoso e sertão (ou parte central). Para ele o terreno da Capitania é, em geral, vulcânico, conforme ilustra o fragmento abaixo:

...digo que é, em geral, vulcânico, composto de massas irregulares de lavas e outras substâncias térreas primitivas, mais ou menos alteradas por força do fogo, constituindo o seu âmago ou núcleo universal uma rocha viva, azulada, saxoza, vitrescente e duríssima (p. 12).

Segundo Guedes (1997), o vulcanismo era um dos assuntos que ocupava os naturalistas a partir de reforma da Universidade de Coimbra. Mesmo quando a preocupação não era entrar no debate sobre as origens dos vulcões, procurava-se, pelo menos, anotar sua presença ou ausência. Figueirôa e Lopes (1995) observam que apesar de a "sabedoria popular" afirmar que o Brasil é um país abençoado por não ter vulcões, nem terremotos ou furacões, os homens de ciências que lidavam com as ciências geológicas, desde fins do século XVIII incluíam esses tópicos entre seus interesses, ainda que fosse somente para explicar sua ausência.
Na presente Memória, Feijó não nos fornece claramente suas idéias sobre o vulcanismo, muito embora ele fale da "força do fogo" que teria alterado "substâncias térreas primitivas". Mas essas idéias podem ser encontradas no seu já citado trabalho sobre a erupção vulcânica da Ilha do Fogo, ocorrida em Janeiro de 1785.
As idéias vulcanistas de Feijó contidas em seu trabalho sobre a Ilha do Fogo foram objeto de análise por Figueirôa e Lopes (1995). Segundo as autoras, Feijó explicava os fenômenos vulcânicos como conseqüência de combustão interna de diferentes materiais.

The combustible material (like sulfur, pyrites, and calcareous substances) fired as a result of a particular fermentation, or of the different dilated gases [...] oppressed, circulating in the center of that furnace, and flowing through the parts where they found less resistance, opened several holes in all that mountain, until the sea, from where torrents of fire came out, enormous amount of lava - some burned, and others molten -, ashes, and smoke... (Feijó, 1813: 25, in Figueirôa e Lopes (1995: 160).

Segundo as mesmas autoras essa era uma idéia bastante aceita no período. John Walker, professor de História Natural da Universidade de Edinburgh, de 1779 a 1803, e que teve entre seus alunos John Playfair (1748-1819), este último frequentador da Royal Society e importante estudioso da Terra, afirmava em uma de suas aulas de Geologia que
The smoke of volcanoes[...] of a black pitchy colour [...] is evidently originated from the inflamation of bituminous matter and with this matter volcanoes are supplied" (in Figueirôa e Lopes, 1995: 160).
Ora, o trabalho de Feijó sobre a Ilha do Fogo foi feito em meio às discussões sobre a origem vulcânica dos basaltos. Quando Nicolas Desmarest (1725-1815), a partir de observações de campo na França, afirmou que o basalto era uma rocha vulcânica, iniciou-se uma grande controvérsia entre os vulcanistas e os netunistas, estes defensores de que o basalto havia sido depositado no oceano primitivo e era, portanto, uma rocha sedimentar. É bem possível que essa controvérsia justificasse o interesse dos naturalistas pelo assunto (Figueirôa e Lopes, 1995),. No caso das observações de Feijó na Capitania do Ceará, é certo que ele afirmou que os terrenos eram vulcânicos partindo de sua experiência anterior, adquirida na Ilha de Cabo Verde.

"sua construção interna e produções do reino mineral"
Nesse parágrafo, Feijó passa a descrever mais detalhadamente os terrenos, identificando os diferentes tipos de materiais de que são formados. Assim, por exemplo, no cimo da Grande Serra acham-se

dispersas grandes massas de peras ou rocha viva, ou em pedaços ou em volumes imensos, constituindo a superfície da maior parte das montanhas isoladas, em cujos vértices se notam de ordinário antigas crateras vulcânicas afuniladas, que provam terem sido produzidas de erupções subterrâneas, encontrando-se nelas muitas sorte de lavas, basaltos, shorls, uns vagos e outros engastados em cristais de quartzos brancos, etc (p. 12).

Ou ainda

Apesar de todas as minhas diligências jamais pude descobrir à beira-mar vestígio algum de pedra calcárea, a não ser aquela aglutinação de ostras, sendo por isto ali precária a cal para os edifícios. Contudo, para o interior na distância de 6 a 20 léguas, a encontrei em grossos bancos muito compacta e da natureza que chamas pedra-porco (p. 13).

Esse fragmentos são bem ilustrativos de uma preocupação em descrever o visto de maneira detalhada. Nesse sentido, a Memória é um verdadeiro testemunho do que o naturalista vê e sua leitura nos permite visualizar todo o cenário a partir de um olhar à distância (Shapin, 1999). Ao agir dessa forma Feijó está seguindo à risca as orientações da Academia Real das Ciências de Lisboa e do mestre Domingos Vandelli que escrevia, em 1779 que
Mui pouca seria a utilidade das peregrinações filosóficas se o naturalista, fiando-se na sua memória, quisesse fazer as sua relações e descrições sem ter notado antecedentemente com a pena todos os objetos que fosse encontrando no seu descobrimento (Vandelli, 1779: 1).
Assim, as Memórias deveriam resultar de anotações precisas feitas no momento exato do "descobrimento". Daí a necessidade dos diários de campo recomendados por Vandelli, o qual fornece detalhes minuciosos de como organiza-los. Para Vandelli, o que não se pode remeter deve ser descrito com minúcias e exatidão; e os diários serviriam de base para isso.

Ora bem se vê, que para notar qualquer destas coisas ditas, não é necessário muito tempo, com tanto que nos sirvamos dos diários, ou por este modo, ou por outro semelhante. Porque depois nas horas do descanso, não temos mais que desenvolver as idéias que temos figurado no diário, e descrever mais exatamente o que tivermos visto (Vandelli, 1779: 6).

Fósseis: evidências contra Buffon e outros detratores da América
Nos parágrafos 25 e 26, denominados respectivamente "raras petrificações" e "ossada fóssil" Feijó faz comentários que podemos situar entre as primeiras observações sobre as características paleontológicas marcantes da região. Seus registros também o colocam dentro da disputa sobre a alegada inferioridade da América, questão que se apresentava aos naturalistas desde a segunda metade do setecentos, a partir dos escritos de Buffon.
Em 1749 iniciou-se a publicação da História Natural, obra de um dos mais importantes naturalistas do século XVIII, George-Louis Leclerc, Conde de Buffon (28). Nessa obra, composta de 44 volumes, publicados entre 1779 e 1804, Buffon, entre muitos outros assuntos, apresenta uma teoria sobre a origem da Terra e faz algumas colocações sobre o continente americano que inauguram aquela disputa. No que concerne aos aspectos geológicos, o Novo Mundo seria, segundo Buffon, muito mais velho se comparado ao velho continente, pois apresentava sinais de que emergira das águas posteriormente. Em um ambiente dominado por uma grande quantidade de rios, lagos e pântanos, além de um clima quente e úmido e uma vegetação que impedia a penetração dos raios solares, a América só poderia sustentar uma natureza viva inferior. Daí a América possuir uma enorme quantidade de insetos e répteis. Quanto ao homem do continente, ele seria de menor estatura e mais fraco e, por isso mesmo, impossibilitado de dominar a natureza. Segundo Fonseca (1996: 21) Buffon

...interpretava, de um forma rígida e causal, a relação orgânica do ser vivo com o ambiente natural [...] A constatação da diferenciação das espécies americanas foi um dos pressupostos mais significativos para sua teoria. A partir desta distinção e agregando-se os fatores naturais determinantes citados, Buffon avaliava os seres do Novo Mundo como diferentes, inferiores, mais fracos e menos numerosos.

A tese de Buffon foi seguida pelo Abade Raynal (1775) (29) e por De Pauw (1768-69) (30). Raynal encampou as idéias de Buffon no que diz respeito à conexão clima-natureza viva, concordando que o ambiente americano produzia seres mais fracos. De Paw apontava o clima da América como o principal fator explicativo do quadro degenerativo que, em sua opinião, a América apresentava (Gerbi, 1996, Fonseca, 1996). Para esses filósofos-naturalistas, a natureza americana era hostil e imprópria aos seres vivos. A umidade do ambiente, a altura das montanhas, a qualidade das águas, o estado bruto da natureza eram propícios à proliferação de formas inferiores de vida. Para De Paw, considerado o maior detrator da América, o continente era um lugar que levava à degeneração de animais e homens. Esse estado de coisas teria sido conseqüência de acontecimentos catastróficos. A América sofrera um dilúvio recente. Terremotos, vulcões e inundações completariam o quadro de desgraças americanas (Gerbi, 1996). As idéias de Buffon, Raynal e De Paw deram origem a uma imensa polêmica, objeto do trabalho de Gerbi (1996) o qual mostra como foi a reação tanto na Europa como na América. Fonseca (1996), compartilhando das idéias de Gerbi (1996), afirma que os trabalhos de naturalistas americanos do período procuravam se contrapor a essas idéias, procurando evidências de um continente habitável e em muitos aspectos superior. A afirmação dos autores acima citados vêm sendo confirmada pelas leituras que temos feito de textos de naturalistas nascidos na colônia e que aqui trabalharam estudando suas potencialidades no campo da História Natural, entre eles Feijó.
Sobre as "raras petrificações" Feijó afirma:
Notam-se na serra dos Cariris, onde se diz Milagres, 80 léguas para mais, longe do mar e naquela elevação, as mais raras e curiosas petrificações vagas de peixes e de muitos gêneros de anfíbios, e alguns de grandeza de 4 palmos, incluídos como em uma espécie de Etites, de substância calcárea, em cujo âmago se observa o animal totalmente perfeito e reduzido interiormente à uma cristalização espatosa (p. 13).

Sobre as ossadas fósseis de "grandioso tamanho, como vértebras, costelas e fêmures" que Feijó encontrará em um local denominado lagoa Catharina, ele observa:

Que exemplos pois para suas provas não deduzirão destes objetos os sectários do célebre sistema de Buffon? Não menos para aqueles naturalistas que se persuadem que não podem petrificar as substâncias moles ou carnosas dos animais (p. 13).

As duas citações mostram que Feijó era contrário a uma idéia ainda muito comum entre os naturalistas da época para os quais as partes "moles ou carnosas" dos animais não poderiam se "petrificar" (Pinheiro e Lopes, 2002). Quanto a segunda citação, vemos que Feijó se coloca frontalmente contra Buffon ao enfatizar que as ossadas encontradas eram bastante grandes. A maneira como ele constrói seu discurso mostra mesmo uma dose de ironia em relação à idéias buffonianas. Como os sectários seguidores de Buffon, que afirmavam que a natureza viva da América era inferior, que seu ambiente produzia seres pequenos e frágeis, explicariam a grandeza das ossadas encontradas?

Materiais minerais
Segundo afirma Rudwick (1996), a Mineralogia constituiu-se, durante boa parte do século XVIII, em uma ciência essencialmente de laboratório. Ela tinha um caráter estático, sem se preocupar com a questão de como surgiram os minerais, em que ambiente ou época. A tarefa básica do mineralogista era coletar amostras e levá-las ao seu gabinete para ali fazer sua identificação e classificação. Tal realidade indicava, nas palavras de Guntau (1996), a natureza da História Natural, cujo objetivo era registrar, sistematizar e classificar os objetos minerais, sem nenhuma pretensão histórica ou cronológica.
Nesse contexto, o campo era um espaço somente de coleta de material e sua importância se encerrava aí. Mas é ainda dentro do século XVIII que essa prática começa a se modificar e a Mineralogia vai assumir uma "dimensão geográfica", pois além de coletar e classificar, os mineralogistas começaram a observar como as rochas e os minerais se distribuíam e se relacionavam espacialmente. Dessa forma, o trabalho de campo deixou de ser utilizado apenas na hora da coleta dos materiais, e passa a ter importância fundamental nos trabalhos de Mineralogia.
Novamente, o texto de Vandelli (1779) é muito ilustrativo dessa prática dentro da Mineralogia, também seguida pelos naturalistas luso-brasileiros. Na parte em que trata da Mineralogia, Vandelli afirma quão importantes eram as contribuições dos naturalistas-viajantes para a construção de "uma história geral da Terra". No texto, o professor coimbrão mostra-se bastante pragmático pois, apesar de reconhecer que "seria preciso dizer alguma coisa da história geral da Terra e fazê-la preceder a história particular de suas produções", não iria fazê-lo pois que seu objetivo não era expor os diversos sistemas cogitados pelos naturalistas para explicar a formação da terra, mas sim "apontar as coisas mais gerais que sirvam de luz ao conhecimento dos indivíduos naturais, de que possa resultar a Portugal algum interesse". Por isso mesmo, Vandelli reconhece que qualquer contribuição para o entendimento da formação da terra ficaria a cargo do naturalista-viajante.

...elle correndo boa parte do mundo, encontrará a cada passo monumentos irrefragáveis da antiguidade que lhe podem sugerir idéias sobre a verdadeira Teoria da Terra (Vandelli, 1779: 17).

O naturalista dedicado à Mineralogia deveria ter o cuidado de dar uma localização exata dos terrenos de que se ocupava: sua latitude, longitude, clima e qualidade da atmosfera em que os terrenos se situavam. Em relação às montanhas, o mineralogista deveria anotar sua localização, altura, arranjo de suas camadas e sua direção (31). Outra regularidade que se deveria sempre anotar sobre as montanhas é se eram correspondentes ou não. Para Vandelli, a correspondências dos ângulos - ele não explica porque - poderia trazer luz à História Natural sobre a Teoria da Terra. Ao examinar as "pedras" e as "terras", suas observações deveriam ser minuciosas de modo que pudessem ilustrar suas origens. Ao naturalista-mineralogista cabia fazer a descrição mineralógica dos materiais que encontrasse, dizer onde foram encontrados e identificar as matrizes dos minerais. Por exemplo, espato e quartzo, Vandelli afirma, eram evidências da ocorrência de "minas metálicas" por serem suas matrizes ordinárias.
Quando uma mina fosse descoberta, além de calcular seu lucro pelo ensaio da mesma, verificar se havia madeira suficiente para sua fundição e observar sua distância dos portos, era extremamente importante que o naturalista anotasse a direção, inclinação, ramificação, largura, altura e profundidade de seus veios. Também era fundamental que fosse apontado o lugar e a posição onde a mina fora encontrada. Para isso, o mineralogista deveria fazer "sinais mineralógicos" em cartas da região.
Observe-se o cuidado de Vandelli em instruir os mineralogistas no sentido de observar aquelas regularidades destacadas por Taylor (1988) e já citadas acima.
Com relação às partes da Memória ora analisada onde Feijó dedica-se à identificar os produtos do reino mineral, pode-se notar não somente o caráter geográfico de seu trabalho como também o grau de obediência às instruções de Vandelli e da Academia.
O naturalista descreve mineralogicamente as "minas", o lugar onde se encontram, sua distribuição pelo espaço. Sobre o ouro, além de indicar e nomear as localidades onde são encontradas algumas minas, Feijó mostra como o metal se encontra disposto: em "viveiros de cristal", ou "solto em partículas mais ou menos sutis, pelos riachos", ou "entre cascalhos", ou outras vezes em "folhetas". O cobre se encontra na serra de Ibiapaba onde há "umas antigas escavações, donde se extraía uma mina que ali há de cobre, na persuasão de ser prata, cujo trabalho decaiu depois de conhecido o engano". Esta mina, escreve Feijó, encontra-se em uma "pedra cinzenta, vitrescível e rija" que vai em direção a uma localidade chamada Ubajara, onde entranha-se pela serra e aparece 6 léguas depois à oeste de Vila Nova de El Rei, já em terras que pertenciam ao Piauí. Aqui, os habitantes extraem o metal para fabricar arreios, pensando tratar-se de prata. Feijó, mostrando todo o seu pragmatismo, conclui que essa mina merece muita atenção "pela sua qualidade e importância do metal, tanto mais porque com efeito me persuado conter também a matriz alguma porção de prata. Outras minas que Feijó identifica, além das de ouro e cobre são as de ferro, nitreiras naturais e plumbagina. Como um último exemplo para ilustrar a maneira com que Feijó fazia suas observações sobre os produtos minerais, segue o que ele escreveu sobre a plumbagina.

Da mesma sorte parece digna de se aproveitar outra mina de plumbagina que, além de outras deste semi-metal, se encontra nas abas da serra dos Côcos, onde se diz - Descida da Mina - , a qual é havida ali pelos habitantes por mina de chumbo (p. 16).

Do Reino Vegetal: matas
Feijó dedica parágrafos específicos para tratar das matas, das árvores e de outras produções do reino vegetal. Podemos encontrar nessas observações aquela constante preocupação em inventariar todo e qualquer produto economicamente viável. Contribuir para o crescimento do comércio, da indústria, e indicar plantas que poderiam ser aclimatadas, substituindo sua importação, estão entre os objetivos de Feijó. Como exemplo, segue transcrito o que Feijó anota sobre as "produções das plantas indianas":

As árvores e plantas frutíferas da Índia prosperam ali como se fosse aquele o seu país: tais são as mangueiras, as jaqueiras, o café, a caneleira, o gengibre, etc..(p. 19).

Sobre as árvores particulares o naturalista escreve:

Nas matas se encontram excelentes árvores, como cedros, angicos, aroeiras [...] importantíssimas pela qualidade de suas madeiras e cores, não só para construção, mas todas as obras de marcenaria, tinturaria e para outras artes, ou sejam no aproveitamento de suas madeiras ou de suas féculas corantes, ou finalmente suas gomas, resinas, óleos, etc. (p. 19)

Essas árvores não seriam interessantes para a construção naval, pois as melhores e que podiam ser aproveitadas para esse fim, nos dizeres de Feijó, encontravam-se muito afastadas dos portos do mar. Contudo, algumas árvores mais próximas ao litoral

...deixar-se-iam aproveitar para o comércio, subministrando-lhes lucrativo lastro para as embarcações nacionais, que navegam para a Europa carregadas de algodão, pois por falta disso são obrigados a comprar para os seus lastros o ferro em Inglaterra, e desta sorte aproveitar-se-ia imensa quantidade dessas madeiras, que o fogo dos abusivos roçados anualmente consome, e de outras que se desperdiçam (p. 19).

A crítica feita aos "abusivos roçados" que causam a destruição das matas, é recorrente entre os naturalistas do período e reflete uma preocupação com a preservação de matas e bosques, reivindicada por esse mesmo grupo de naturalistas. Isso não nos deve levar a procurar nesses naturalistas, possíveis raízes de um pensamento ecológico. Tal "preservação" se justificava, como fica bem claro na citação acima, pelas utilidades que o uso racional das matas poderia trazer ao Estado. É dentro desse contexto que se pode entender as palavras de Dom Rodrigo de Sousa Coutinho, em carta enviada à Capitania de Minas Gerais, em 1799, quando agradece os trabalhos do mineralogista José Vieira Couto (1752-1827). Nessa carta ele solicita ser informado

se nas vizinhanças das belas minas de ferro que descobriram e analisaram há bosques e arvoredos, que desde logo se possam cortar para estabelecer carvoaria, que supram os trabalhos das minas, e que o bosque seja tal que se reproduzam as árvores nos intervalos que se estabelecerem de um corte a outro (32).

CONSIDERAÇÕES SOBRE O ARTIGO 3. DO POLÍTICO DO CEARÁ
A intenção de Feijó é apontar, entre "tantos recursos físicos" aqueles que, em sua opinião, seriam os mais interessantes a serem promovidos "em utilidade particular do mesmo pais e aumento geral das rendas do Estado". Ele diz:

À vista do que há espendido até aqui, é para admirar o atrasamento em que se tem estado esta Capitania, apesar de ser povoada há mais de 200 anos. Contudo, como se vê, há grandes recursos e meios infinitos de se prosperar e fazer rápidos progressos... (p. 21).

Depois, discorre brevemente sobre a importância de fomentar a arte pastoril e piscatória em uma região possuidora de grandes extensões de terrenos incultos e de larga costa marítima. Afirma também o quanto seria interessante o aproveitamento das salinas que "há por toda aquela costa de mar; e com ela aumentar-se-á também o seu comércio e os interesses da Coroa".

Da agricultura
Para Feijó, a agricultura deveria receber os primeiros cuidados políticos pois

...é constantemente sabido ser a mãe do gênero humano e a origem primária e inesgotável de toda a prosperidade pública, pela dupla vantagem de contribuir mais do que nenhuma outra, tanto ao aumento da população, com a um vantajoso e ativo comércio (p. 25).

Se no Ceará a fecundidade da terra fosse aproveitada no fomento à agricultura, a Capitania seria levada a um "maior auge de grandeza real" que ultrapassaria as "vantagens que lhe podem produzir os outros dois ponderados artigos". Feijó sugere que, "além da plantação de seu algodão", seria de muito interesse econômico a introdução e o fomento de outras produções vegetais como o anil, o cacau, o urucum, a cana-de-açúcar e o arroz, produtos que, nas palavras de Feijó, tinham ali uma produção "diminuta".
A afirmação da agricultura como a principal fonte de riqueza é muito presente nas Memórias dos naturalistas luso-brasileiros do período abordado aqui e está de acordo com uma preocupação prioritária dos acadêmicos da Academia Real das Ciências de Lisboa. Domingos Vandelli, por exemplo, colocava a agricultura entre suas primeiras preocupações. O professor italiano publicou algumas Memórias na Academia tratando da agricultura e de sua importância para o desenvolvimento do Reino e suas conquistas. No conjunto de publicações da Academia, a agricultura é um dos assuntos que mais aparece. Tal fato pode nos levar a concluir que o escola fisiocrática era dominante entre os ilustrados luso-brasileiros. Mas Fernando Novais (1995) já nos alertava para o fato de que esse relevo atribuído ao setor agrícola não nos deve levar a pensar em uma adesão sistemática da mentalidade ilustrada luso-brasileira à Fisiocracia. Citando e refletindo sobre alguns textos de cunho econômico do período, o referido autor chega à conclusão que, na realidade, "o pensamento fisiocrático era mobilizado para servir a uma política econômica reformista". Embora a preocupação com a agricultura esteja presente em muitos textos, muitos deles são claramente ecléticos pois se aderia, "um tanto promiscuamente, ao mesmo tempo à idéia smithiana do trabalho engendrador de valores e - traço fisiocrático - da natureza criadora de excedentes" (33). Munteal Filho (1998) também observa que "as correntes teóricas e as influências vinham de todo o lado" e que a Academia não era uma agremiação coesa, mas, ao contrário, abrigava diversas correntes de pensamento. Cardoso (1987), ao tecer considerações sobre as Memórias da Academia Real das Ciências de Lisboa também considera a "tonalidade agrarista" como um aspecto característico daqueles textos. No entanto, pondera que a utilização de idéias agraristas-fisiocráticas propiciava um aparato conceitual que servia à crítica ao mercantilismo vigente, que os ilustrados queriam reformar, o que não significa que a escola fisiocrática tenha sido acolhida sistematicamente.
O agrarismo dos memorialistas surge, assim, como emblema de uma nova visão sobre a estratégia de desenvolvimento econômico para o país, como bandeira de denúncia dos erros e vícios que, a seu ver, ensombravam a situação da economia portuguesa pós-pombalina (Cardoso, 1987: 18).
A partir da leitura e análise de algumas Memórias - mesmo aquelas mais dedicadas aos objetos de Mineralogia e Geologia - não se pode negar que na escrita dos naturalistas do período há uma enorme preocupação com a agricultura. Entretanto, partilhamos da opinião dos autores acima citados, de que esse discurso agrarista constituiu-se em uma estratégia utilizada para incitar o fomento de uma atividade considerada importante mas que se encontrava em estado de abandono, sem significar, contudo, o desprezo a outras atividades. Dentro daquela "nova visão sobre a estratégia de desenvolvimento econômico" (Cardoso, 1987), a agricultura vinha tomar lugar importante, mas não único. Dom Rodrigo de Sousa Coutinho, ministro de Estado e sócio fundador da Academia, sempre se interessou pelo reino mineral, dedicando diversas Memórias ao assunto. Como pudemos perceber, a mineração era também um campo que muito interessava às autoridades lusitanas e aos acadêmicos, como bem mostram as instruções que foram escritas por Vandelli ou pela Academia, no sentido de orientar os trabalhos dos naturalistas luso-brasileiros.


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NOTAS
1. Além de Carvalho (1987), ver também Domingues, A (1991) e Silva, M. (1999).
2. O italiano Domingos Vandelli (1730-1815) foi o primeiro lente de Química e História Natural da Universidade de Coimbra após as reformas pombalinas. Exerceu suas atividades naquela instituição entre os anos de 1772 e 1791. Foi um dos mais vigorosos impulsionadores da criação da Academia Real das Ciências de Lisboa (1779). Vandelli transitou por alguns dos espaços de investigação mais importantes criados durante o processo reformista iniciado pelo ministro de Dom José I, Marquês de Pombal (1699-1782), e continuado por seus sucessores. Durante seu trabalho como professor e investigador em Coimbra, Vandelli e seus alunos utilizavam o Laboratório Químico, o Gabinete de História Natural e o Jardim Botânico. Ao mesmo tempo Vandelli participava ativamente dos trabalhos da Academia Real das Ciências de Lisboa, como diretor da classe das ciências da observação, bem como do Museu da Ajuda onde dava aulas desde 1782 (Brigola, 2000). Carvalho (1987) destaca o fato de Vandelli ser o encarregado da "direção de todos os departamento de História Natural, tanto na Universidade de Coimbra como na Ajuda".
3. Este artigo se insere no projeto de pesquisa mais amplo "Emergência e consolidação das ciências naturais no Brasil (1770-1870)", coordenado pela profa. dra. Maria Margaret Lopes, que conta com o apoio da FAPESP/Brasil (no. 00/04751-0). Também integra a pesquisa de doutoramento de Clarete Paranhos da Silva, que conta também com o apoio da FAPESP/Brasil (no 00/14396-3).
4. Para análises dos trabalhos de Feijó em Cabo Verde ver: Guedes (1997, 2000)
5. Simon (1983), Carreira (1986), Guedes (1997, 2000) afirmam que sim, embora não precisem exatamente suas fontes. Silva Nobre (1978) sugere que Feijó teria cursado a Academia Militar de Lisboa, dado não ter encontrado seu nome nas relações de alunos formados no período em Coimbra.
6. Ver documentação existente no Museu Bocage. Agradecemos a dra. Estela Guedes pela referência a essa documentação e ao prof. Dr. Carlos Almaça pela reprodução desse material.
7. Ver entre outros: Memória sobre a fábrica real de anil da Ilha de Santo Antão. Publicada nas Memórias Econômicas da ARCL, tomo 1, 1789, pp. 407-421. Memória sobre a urzella de Cabo Verde. Memórias Econômicas da ARCL, tomo 5, 1815, pp. 145-154. Ensaio político sobre as ilhas de Cabo Verde para servir de plano à história filosófica das mesmas. Publicado no Patriota, n. 5, nov. de 1813. Memória sobre a última erupção vulcânica do Pico da Ilha do Fogo, sucedida em 14 de Janeiro do ano de 1785, observada e escrita, etc.. Publicada no Patriota, tomo 3, n. 5, 1814, pp. 23 a 32. Ensaio Econômico Sobre as Ilhas de Cabo Verde, provavelmente lido na Academia em 1797 (Guedes, 1997) e publicado pela mesma Academia, em 1815. Itinerário Filosófico que contem a relação das ilhas de Cabo Verde, disposta pelo método epistolar. Dirigidas ao Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Martinho de Mello e Castro, pelo naturalista régio das mesmas ilhas João da Silva Feijó, 1783. Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, manuscritos, cód. 12984.
8. Manuscrito no Museu Paulista, Coleção José Bonifácio, D-79. Esta obra se soma a um vasto conjunto de memórias, artigos e discursos escritos naqueles anos de tentativas de recuperação do setor de produção mineral, particularmente em terras da América Portuguesa. Precedido de breves comentários, o texto integral desse discurso, que até recentemente parece ter permanecido em manuscrito, encontra-se em Silva, C. P. & Lopes, M.M. "O ouro sob as luzes: a "arte" de minerar no discurso do naturalista João da Silva Feijó (1760-1824) (no prelo).
9. Biblioteca Nacional de Lisboa, Reservados, códice 610 (F.R. 762).
10, Livro de Registro da Vedoria Geral da Capitania do Ceará. Fls 9v e 10v (publicado em Silva Nobre, 1978, pp. 177-178)
11, Carta de 21/12/1799. Coleção Studart, publicada em Silva Nobre (1978: 179-180)
12. Requerimentos de 24/01/1735 - n.164; 20/02/1736 - n.174; Provisão de 15/11/1745 - n.257; Certidão de 20/02/1746 - n. 265 pp. 60, 62, 77 e 79. Quando não mencionadas outras fontes, a numeração e a página indicadas dos documentos correspondem ao Catálogo de documentos manuscritos avulsos da Capitania do Ceará (1618-1832), (CDACC) organizado por Jucá, G.N.M. Ministério da Cultura; Fortaleza; UFC. Fund. D. Rocha, 1999 (Projeto Resgate-Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal).
13. Correspondência de Sylva, M.A.R. da - Lisboa, 2 de abril de 1745. Coll. Studart, v. 3, p. 407, publicada em Studart, 2001: 211.
14. Ver entre diversos outros documentos:,Carta de 6/01/1754 - n.380; Ofício de 2/04/1757 - n. 433; Carta de 3/04/1757 - n. 436CDACC, pp. 99, 109, 110.
15. Cartas de 11 e 31/12/1800 (Silva Nobre, 1978, pp.195-199).
16. Carta de 2/05/1804 ao governador do Ceará. (Silva Nobre, pp. 220-223)
17. Ofícios de 24 de abril de 1804, de 02 de maio de 1804 e de 31 de maio de 1804. Publicados em Nogueira (1888: 258-266).
18. Ofício da Junta da Fazenda ao Vice-Rei do Brasil (Luiz de Vasconcelos e Souza) datado em 02 de junho de 1807. Publicado em Nogueira (1888: 266-268)
19. Carta de 17/10/1803 para D. Rodrigo de S. Coutinho (publicada em Silva Nobre, 1978: 209-211)
20. Relação das sementes das plantas agrestes da Capitania do Ceará (17/10/1803) e Relação das sementes das plantas Indígenas da Capitania do Ceará (17/10/1803) (publicadas em Silva Nobre, 1978:213-214).
21. Silva Nobre, 1978. pp.179-180. Trata-se das obras "Onomatologia Botânica" publicada entre 1771 e 1777 por Friedrich Gmelin (1748-1804) e a obra de Johann C. Fabricius (1745-1808), discípulo de Lineu e professor de História Natural em Kiel.
22. Documento do Museu Nacional do Rio de Janeiro. Portaria do conselheiro José Bonifácio de Andrada e Silva. Doc. n. 11, Pasta 1, 28/03/1822.
23. Para uma discussão sobre os vínculos entre essas atividades ver Pinheiro, R. & Lopes, M.M. (2002)
24. Werner, desde 1775, lecionava na Escola de Minas de Freiberg, na Saxônia, para onde se dirigiam muitos estudantes a fim do aprender com o famoso professor. Lá estiveram os brasileiros José Bonifácio de Andrada e Silva e Manuel Ferreira da Câmara. Segundo a concepção de Werner, a Terra fora completamente coberta por um oceano primordial que continha em solução todos os materiais que em um dado tempo precipitaram- se e deram origem à crosta terrestre.
25. Além do termo "regularidades permanentes", Taylor usa também "regularidades estáticas", "condições constantes" e "regularidades de disposição" como sinônimos.
26. De maneira genérica, até o início do século XIX, aqueles que se dedicavam aos estudos sobre a Terra chamavam a si mesmos de mineralogistas. O termo Geologia, no sentido de expressar os conhecimentos sobre o globo terrestre, já fora proposto desde 1778 por Jean André De Luc (1727-1817), mas só passou a ser utilizado largamente no início do século XIX (Gohau, 1987; Rudwick, 1996).
27. O princípio da correspondência dos ângulos que Bourguet já abordara em 1729, foi retomado por Buffon e por outros autores posteriores e era, segundo Taylor, (1988), uma das regularidades mais discutidas pelos geólogos do XVIII. Por este princípio, quando duas montanhas estivessem paralelas, os ângulos dos dois lados deveriam ser correspondentes.
28. Buffon, Georges-Louis Leclerc. Histoire naturelle, générale et particuliére, avec de la description du Cabinet du Roi. Paris: 1749-1804, 44 volumes (citado em Fonseca, 1996)
29. Raynal, Guillaume-Thomas-Francois. Histoire philosophique et politique, des établissements et du commerce des Européens dans les deux Indes. Genebra: 1775, 3 volumes (citado em Fonseca, 1996).
30. Pauw, Corneille de. Reserches philosophiques sur les américains, ou Mémoires intéressants pour servir à histoire de l'espéce humaine. Berlim: 1768-9, 2 volumes (citado em Fonseca, 1996).
31. A direção das montanhas na América havia tomado conta das especulações dos filósofos naturalistas na medida em que diferiam da das montanhas Européias. Por isso Vandelli escrevia que o naturalista devia observar a direção das montanhas que na América "costuma ser toda diferente, estendendo-se os montes mais do norte ao sul, do que do oriente ao ocidente (Vandelli, 1779: 22).
32.Arquivo Público Mineiro, sc. 269, f. 40.
33. O ecletismo foi uma característica do século XVIII europeu, conforme apontado por Hazard (1989). Dentro da ilustração luso-brasileira esse ecletismo era bastante acentuado, como se pode ver pelos Estatutos da Universidade de Coimbra e pelas idéias de Domingos Vandelli. Segundo os Estatutos da Universidade reformada "não haverá sistema algum filosófico que o professor inteiramente subscreva na exploração e demonstração das leis naturais. Antes, pelo contrário, a filosofia que ele deverá seguir será precisamente a eclética" (citado em Fávero, 1996: 83). Domingos Vandelli na sua Memória sobre a preferência que em Portugal se deve dar à agricultura sobre as fábricas afirma, logo de início, que "sendo certo, que todos os ramos da economia civil, para que esta seja útil ao reino, devem ser regulados por princípios deduzidos de uma boa aritimética política; assim não se devem seguir sistemas, sem antes examiná-los, e confrontá-los com as atuais circunstâncias da nação" (Mecs. , tomo I (1780-1815) [1990: 185]. Nesse trecho Vandelli define claramente a orientação eclética e pragmática do reformismo ilustrado luso-brasileiro.





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