segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Periferia poética 04.06.2008 - CHICO RABELO - CADERNO 3 - DIÁRIO DO NORDESTE

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Chico Rabelo e suas telas de uma Fortaleza imaginária
CLAUDIO ROCHA/DIVULGAÇÃO
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 Uma visão naïf do cotidiano da periferia em “O dia-a-dia na comunidade”

Ainda é possível. Essa, a maior esperança evocada pelas obras do artista plástico Chico Rabelo. Morador do Centro da cidade desde que nasceu, há 48 anos, Chico dirige seu olhar para a periferia, que freqüenta há décadas. “Vivi a vida toda nesses lugares, embora tenha nascido no Centro. Mas não me dirijo a uma comunidade específica, falo de todas as comunidades”. Sob curadoria de Zé Tarcísio, texto de apresentação de Estrigas, Chico “fala” através de 32 pinturas em acrílica sobre tela e sobre placa de eucatex, produzidas nos últimos três anos.

Da Rua Rodrigues Júnior, Rabelo costuma visitar amigos em bairros litorâneos, do Morro Santa Terezinha e Serviluz, ao Planalto das Goiabeiras e Pirambu, sempre vislumbrando uma realidade mais amena do que ela se manifesta de fato. “É o pessoal fazendo unha na calçada, tirando água do poço. Muitas coisas ainda acontecem como há 30 anos, ou pelo menos eu acredito que aconteçam. Quero mostrar mais a fome de vida, o lado humano, e não a fome da miséria dos não nativos desses locais”. Quer dizer, se, de fato, a cidade continua longe dos ousados slogans políticos, pelo menos na arte encontramos uma periferia que se faça bela.

Trajetória

Artista autodidata, Chico Rabelo iniciou sua trajetória com 26 anos, participando da Unifor Plástica e, em 87, do Salão de Abril. Dois anos depois, voltaria a ser contemplado com o Unifor Plástica. Nos anos 90, participa de outros salões em Fortaleza, Araraquara, Santos e outras cidades do interior paulista, fechando a década no Salão de Sobral. Em 2000, participa da coletiva “Visão atual da arte cearense”, na Galeria de Arte da Receita Federal em Fortaleza/CE. Nos primeiros anos do século XXI, Rabelo participou de coletivas e prêmios, em Fortaleza e Sobral, inclusive junto ao Grupo Iracema de Artes Plásticas. Em 2004, abriu a individual “Arquitetura Marginal”. Ano passado, expõe no Rio, na coletiva “Arte Pan” e, junto ao grupo Gira sol, participa da coletiva itinerante da Mostra Sesc de Arte Naïf, em Fortaleza, Crato, Juazeiro do Norte, Sobral e Iguatu.

Olhar humano

Mesmo com toda esta estrada, o artista mantém seu olhar humano em suas obras. “A realidade mudou pela violência e também pela mídia, que acaba desfacelando os vínculos cotidianos. O povo não está preparado para tantas influências, agora com tantas novas tecnologias disponíveis”. Assim, rendeiras, pescadores, vendedores de produtos caseiros, casas com suas fachadas simples, reinam nas telas multicoloridas, alegres, espontâneas, imaginárias, de Chico.

Todo esse universo cotidiano e até certo ponto irreal é materializado pelo artista em sua casa, lá na Rodrigues Júnior. “Queria que Fortaleza fosse bela. A arte tem poder para isso. Faço uma interferência sobre o que parece feio, através do belo, do póetico”. Conhecedor do trabalho de Chico há muitos anos, o curador, e também artista plástico, Zé Tarcísio enaltece sua “visão simples sobre o cotidiano, a vida social” e, com a autoridade de quem esteve à frente da I Mostra Naïf e já prepara a sua segunda edição, ressalta que este gênero continua sendo bastante perseguido por uma parcela de artistas e pseudo-artistas que não vislumbram nada além de seus umbigos.

“Existe preconceito com esse segmento. Muita gente ainda não percebe que quando a arte é boa, não existe qualquer barreira. O Naïf está em salões em todo o mundo. Existem muitas manifestações contemporâneas que não são legais. Outra coisa bacana dessa arte espontânea é a sua abrangência, como é possível se constatar nesta exposição em torno da riqueza das comunidades. É preciso conhecer esse olhar”. E viva a poesia.

Henrique Nunes
Repórter

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