sexta-feira, 27 de maio de 2011

"NA TELA DA TV, NO MEIO DESSE POVO. A GENTE VAI SE VER NA GLOBO."

CENTRAL DO BRASIL

Dora (Fernanda Montenegro) escreve cartas para analfabetos na Central do Brasil. Nos relatos que ela ouve e transcreve, surge um Brasil desconhecido e fascinante, um verdadeiro panorama da população migrante, que tenta manter os laços com os parentes e o passado.



Uma das clientes de Dora é Ana, que vem escrever uma carta com seu filho, Josué (Vinícius de Oliveira), um garoto de nove anos, que sonha encontrar o pai que nunca conheceu. Na saída da estação, Ana é atropelada e Josué fica abandonado. Mesmo a contragosto, Dora acaba acolhendo o menino e envolvendo-se com ele. Termina por levar Josué para o interior do nordeste, à procura do pai.

À medida que vão entrando país adentro, estes dois personagens, tão diferentes, vão se aproximando... Começa então uma viagem fascinante ao coração do Brasil, à procura do pai desaparecido, e uma viagem profundamente emotiva ao coração de cada um dos personagens do filme.

A Imagem e o Som - Alguns Conceitos do Filme

"Central do Brasil" começa na maior estação de trens do Rio de Janeiro para, num segundo movimento, ganhar a estrada em direção ao nordeste - uma viajem iniciática que se desloca pouco a pouco para o centro do país.

A primeira parte do filme, urbana, foi pensada para transmitir uma sensação de claustrofobia. Os rostos dos depoimentos são vistos em tele. Atrás deles o fluxo de pessoas na Central é contínuo, desumanizado, artérias da estação. As locações exteriores (prédio e casa de Dora, de Irene e de Yolanda) são uma extensão deste mesmo universo, dando uma sensação de "huis clos" ao início do filme. É como se não houvesse possibilidade para Dora de escapar deste círculo vicioso, ou como se Josué não pudesse sobreviver a ele. Rimas visuais (vagão de trem/corredor de prédio de Dora e exterior de trem/prédio de Yolanda) reforçam esta impressão. Não há horizonte neste mundo, não há céu, apenas a presença constante do concreto.

Um certo monocromatismo (declinação de tons ocres, beges, cinzas ou marrons) marca esta parte de "Central do Brasil". À medida que o filme toma a estrada, as lentes se tornam paulatinamente mais abertas, a imagem respira, ganha horizonte e novas cores. É como se uma nova geografia invadisse o mundo até então monocromático da Central. A transição entre um universo e outro é ajudada pelos tons ocres da terra seca do Nordeste. Graças a esta escolha de lentes e a invasão de novas cores, tenta-se dar a impressão de que Dora passa a olhar para o outro. Confrontada com o desconhecido, Dora não detém mais o poder sobre o destino das pessoas (mandar ou não as cartas). Ela passa a ser pouco a pouco transformada por este novo mundo e pelos personagens que encontra no caminho. Josué também começa a descobrir um outro universo. Para ele, a jornada é ainda mais emblemática; é o retorno à terra que não conheceu, o retorno a uma êtaca imaginada e desconhecida para ele.

No final do filme, na Vila do João, retorna a sensação de claustrofobia trazida pela arquitetura desumana dos projetos BNH que assolam o país, tentando mascarar a favelização crescente do Brasil. É como se tivesse voltado o universo massificado do início do filme. Então, porquê Dora deixa Josué por lá? Porquê o afeto, o reencontro com os irmãos é mais forte do que o ambiente desindividualizado da Vila do João.

O som, por outro lado, acompanha o mesmo raciocínio da imagem. Da cacofonia da Central e dos barulhos da cidade que invadem constantemente os ambientes de Dora, Irene e Yolanda, passa-se lentamente para um processo em que os sons se tornam cada vez mais individualizados e rarefeitos, à medida que entramos país adentro.

Em outras palavras, os sons se tornam mais discerníveis à medida que Josué se aproxima de sua família e recupera a identidade perdida, ou à medida que Dora se ressensibiliza.


FOTO BY: FRANCO WEBER DOS ANJOS.

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